Entorse de tornozelo e pé
Visão Geral da Entorse de Tornozelo e Pé
Uma entorse de tornozelo é uma das lesões musculoesqueléticas mais comuns [1]. Ocorre quando os ligamentos que sustentam a articulação do tornozelo são esticados além de sua amplitude normal, levando a rupturas parciais ou completas [1]. O mecanismo mais frequente é uma lesão por inversão, onde o pé vira para dentro ("torção"), esticando ou rompendo os ligamentos laterais (principalmente o ligamento talofibular anterior - LTFA, seguido pelo ligamento calcaneofibular - LFC) [1, 2]. Lesões por eversão (o pé vira para fora) são menos comuns e afetam o ligamento deltoide medial [1].
Essas lesões geralmente acontecem durante atividades esportivas que envolvem saltos, cortes ou mudanças bruscas de direção, mas também podem ocorrer durante atividades simples como caminhar em superfícies irregulares, descer um meio-fio de forma desajeitada ou escorregar no gelo [1].
Diagnóstico da Entorse de Tornozelo e Pé
O diagnóstico de uma entorse de tornozelo ou pé envolve uma combinação de avaliação clínica e, às vezes, exames de imagem [1].
Sinais e Sintomas Clínicos [1, 2]:
- Dor: Dor localizada, particularmente à palpação sobre os ligamentos lesionados (por exemplo, anterior ao maléolo lateral para entorses do LTFA).
- Reprodução do Mecanismo: Aumento da dor quando o pé é movido passivamente na direção que imita o mecanismo da lesão (por exemplo, inversão para entorses laterais).
- Inchaço (Edema): Inchaço localizado ao redor do maléolo afetado ou inchaço mais difuso no tornozelo.
- Hematoma (Equimose): Pode aparecer horas ou dias após a lesão, muitas vezes se estendendo em direção ao calcanhar e aos dedos dos pés.
- Hemartrose: Sangramento diretamente na cavidade da articulação do tornozelo, causando um inchaço mais difuso e pastoso, particularmente perceptível na face anterolateral da articulação. Flutuação (uma sensação de onda à palpação) pode estar presente.
- Instabilidade: Uma sensação de que o tornozelo "cede", particularmente com entorses mais graves (Grau II ou III envolvendo rupturas completas). Testes clínicos como o teste da gaveta anterior (para LTFA) e o teste de inclinação talar (para LFC) avaliam a frouxidão ligamentar, embora a dor aguda e o inchaço possam limitar sua confiabilidade.
- Estalo Audível: Os pacientes podem relatar ter ouvido ou sentido um "estalo" ou "crepitação" no momento da lesão, muitas vezes indicando uma ruptura significativa do ligamento (Grau II ou III).
Diagnóstico Diferencial de Dor no Tornozelo/Pé Após Lesão [1, 3]
| Condição | Características Principais / Pontos Distintivos | Testes Provocativos Típicos / Achados / Imagens |
|---|---|---|
| Entorse de Tornozelo (Lateral) | Lesão por inversão. Dor/inchaço/sensibilidade sobre os ligamentos laterais (LTFA, LFC). | Dor com a inversão. Gaveta anterior/inclinação talar positivas (se grave/avaliável). Radiografias negativas para fratura (se as regras de Ottawa forem atendidas). |
| Fratura de Tornozelo (Maleolar, Talar, Calcânea) | Muitas vezes mecanismo de maior energia. Sensibilidade pontual diretamente sobre o osso. Incapacidade de suportar peso (frequentemente). Deformidade grosseira pode estar presente. | Sensibilidade óssea (regras de Ottawa positivas). As radiografias confirmam a fratura. TC para fraturas complexas. |
| Fratura da Base do 5º Metatarso (ex. Jones) | Muitas vezes ocorre com lesão por inversão. Dor/inchaço localizado na base do 5º metatarso. | Sensibilidade pontual sobre a base do 5º metatarso (regras de Ottawa positivas). As radiografias confirmam a fratura. |
| Entorse Sindesmótica (Entorse Alta do Tornozelo) | O mecanismo muitas vezes envolve rotação externa/dorsiflexão. Dor localizada mais acima, entre a tíbia e a fíbula (ligamentos tibiofibulares anteriores ou posteriores). Recuperação prolongada comum. | Teste de compressão (squeeze test) positivo, teste de estresse de rotação externa. Sensibilidade sobre a sindesmose. As radiografias podem mostrar alargamento; a RM confirma a lesão do ligamento. |
| Lesão do Tendão Fibular (Ruptura, Subluxação/Luxação) | Dor/inchaço posterior ao maléolo lateral. Pode ter sensação de clique/estalo (subluxação). Dor com a eversão resistida. | Sensibilidade ao longo dos tendões fibulares. Dor/fraqueza com a eversão resistida. Apreensão/subluxação com manobras específicas. A ultrassonografia ou RM confirma a patologia do tendão. |
| Lesão Osteocondral do Tálus (LCO/OCD) | Dor no tornozelo mais profunda, pode haver travamento/bloqueio. Muitas vezes histórico de entorse(s) anterior(es). Dor persistente após o tratamento da entorse. | Sensibilidade variável. As radiografias podem mostrar a lesão (especialmente em estágios posteriores). A RM é diagnóstica. |
| Entorse/Lesão da Articulação Subtalar | A dor é muitas vezes sentida mais profundamente ou ligeiramente inferior ao maléolo lateral. Dificuldade para caminhar em terrenos irregulares. Muitas vezes ocorre com inversão grave. | Sensibilidade sobre o seio do tarso. Dor com movimento subtalar passivo (inversão/eversão). Diagnóstico muitas vezes clínico ou por RM. |
| Lesão do Tendão de Aquiles | Dor localizada no calcanhar/tendão posterior. Fraqueza com a flexão plantar (arranque). Pode sentir um espaço se estiver rompido. | Sensibilidade sobre o tendão de Aquiles. Teste de Thompson positivo (ruptura). A ultrassonografia ou RM confirma. |
Exames de imagem como a Tomografia Computadorizada (TC) fornecem vistas detalhadas das estruturas ósseas, úteis para identificar fraturas associadas, mas menos ideais para a avaliação primária de ligamentos em comparação com a RM [3]. (O vídeo mostra o uso da TC).
Procedimentos Diagnósticos [1, 3]:
- Exame Físico: Avaliação da sensibilidade, inchaço, amplitude de movimento, estabilidade (se tolerada) e estado neurovascular.
- Radiografias: Cruciais, especialmente se o paciente atender aos critérios das Regras de Ottawa para o Tornozelo (incapacidade de suportar peso, sensibilidade óssea em pontos específicos), para descartar fraturas associadas (maléolos, tálus, calcâneo, base do 5º metatarso). Radiografias de estresse às vezes são usadas para avaliar a instabilidade, mas são menos comuns de forma aguda.
- Ressonância Magnética (RM): Geralmente não é necessária para entorses agudas de rotina, mas é útil para avaliar a instabilidade crônica, suspeita de entorses sindesmóticas (tornozelo alto), lesões osteocondrais (danos na cartilagem/osso), lesões do tendão fibular ou se os sintomas persistirem apesar do tratamento conservador adequado. Fornece excelente visualização de ligamentos e tecidos moles.
- Tomografia Computadorizada (TC): Usada principalmente para definir melhor fraturas complexas identificadas na radiografia ou para avaliar fraturas sutis ou coalizões tarsais.
- Ultrassonografia: Pode ser usada dinamicamente para avaliar a integridade dos ligamentos e a patologia tendínea associada.
As entorses são tipicamente classificadas com base na gravidade [1]:
- Grau I: Estiramento leve dos ligamentos, inchaço/sensibilidade mínima, sem instabilidade.
- Grau II: Ruptura parcial dos ligamentos, dor moderada, inchaço, sensibilidade, instabilidade leve a moderada.
- Grau III: Ruptura completa dos ligamentos, dor intensa, inchaço, sensibilidade, instabilidade significativa.
Tratamento da Entorse de Tornozelo e Pé
O tratamento depende da gravidade (grau) da entorse [1].
Entorses Leves (Grau I):
- Protocolo RICE (Repouso, Gelo, Compressão, Elevação): Repouso, Gelo (aplicar compressas frias 15-20 minutos várias vezes ao dia), Compressão (usando uma bandagem elástica como uma atadura em forma de 8), Elevação (manter o tornozelo acima do nível do coração).
- Modificação da Atividade: Evite atividades que causem dor.
- Mobilização Precoce: Exercícios suaves de amplitude de movimento conforme a dor permitir.
- Suporte: Uma bandagem de compressão ou suporte macio para o tornozelo.
- Retorno à atividade normal tipicamente dentro de 1-2 semanas.
Entorses Moderadas a Graves (Grau II e III):
- Protocolo RICE: Como acima, potencialmente por uma duração mais longa.
- Imobilização: Necessária para proteger os ligamentos em cicatrização. As opções incluem:
- Bota imobilizadora removível
- Tala pneumática (Air-stirrup)
- Suporte de tornozelo com cadarço
- Gesso curto para a perna (menos comum agora, usado para instabilidade grave ou falta de adesão)
- Sustentação de Peso: Muitas vezes sustentação de peso parcial ou nula inicialmente (usando muletas), progredindo conforme tolerado.
- Fisioterapia/Reabilitação: Crucial para a recuperação. Começa assim que a dor e o inchaço diminuem. Inclui:
- Exercícios de amplitude de movimento
- Exercícios de fortalecimento (especialmente os músculos fibulares para estabilidade lateral)
- Treinamento proprioceptivo e de equilíbrio (essencial para prevenir recorrências)
- Treinamento específico da atividade
- Manejo da Dor: AINEs para dor e inflamação.
- Aspiração: Se uma hemartrose significativa causar dor ou pressão intensa, a aspiração (drenagem do sangue com uma agulha) pode ser considerada, embora não seja feita rotineiramente.
- Modalidades de Fisioterapia: O ultrassom (UHF), a estimulação elétrica (SMC), a terapia a laser, o calor (após a fase aguda) ou os banhos de hidromassagem podem ser usados para controlar a dor, o inchaço e promover a cicatrização.
- Injeções Terapêuticas: Injeções (bloqueio) de anestésico local (como novocaína ou lidocaína), às vezes combinadas com corticosteroides (como hidrocortisona), nas áreas mais dolorosas ao redor dos ligamentos podem proporcionar alívio temporário para dor persistente, mas o uso rotineiro de corticosteroides é debatido devido aos possíveis efeitos na cicatrização dos ligamentos.
O tempo de recuperação para entorses de Grau II/III é mais longo, variando de várias semanas a vários meses [1]. O retorno completo aos esportes pode levar de 2 a 4 meses ou mais [1].
Considerações Adicionais de Tratamento:
- Terapia Manual: Técnicas de mobilização articular podem ser usadas durante a reabilitação para restaurar a mecânica articular normal [1].
- Cirurgia: Raramente indicada para entorses laterais agudas do tornozelo [1]. Pode ser considerada para [1, 2]:
- Entorses sindesmóticas graves (tornozelo alto) com instabilidade.
- Lesões associadas que requerem cirurgia (por exemplo, grandes defeitos osteocondrais, rupturas significativas do tendão fibular).
- Instabilidade crônica do tornozelo que não responde ao tratamento conservador prolongado e à reabilitação (envolve reconstrução ligamentar).
A reabilitação adequada é fundamental para prevenir a instabilidade crônica do tornozelo e entorses recorrentes [1].
Referências
- Waterman BR, Owens BD, Davey S, Zacchilli MA, Belmont PJ Jr. The epidemiology of ankle sprains in the United States. J Bone Joint Surg Am. 2010 Oct 6;92(13):2279-84. (Ou revisão epidemiológica semelhante).
- Skinner HB, McMahon PJ. Current Diagnosis & Treatment in Orthopedics. 5th ed. McGraw Hill; 2014. Chapter 9: Foot & Ankle Trauma.
- Stiell IG, McKnight RD, Greenberg GH, et al. Implementation of the Ottawa ankle rules. JAMA. 1994 Mar 16;271(11):827-32.
- Drake RL, Vogl W, Mitchell AWM. Gray's Anatomy for Students. 4th ed. Elsevier; 2019. Chapter 6: Lower Limb (Section on Ankle and Foot).
Veja também
- Inflamação do tendão de Aquiles (paratenonite, aquilobursite)
- Lesão do tendão de Aquiles (entorse, ruptura)
- Entorse de tornozelo e pé
- Artrite e artrose (osteoartrite):
- Capsulite adesiva (síndrome do ombro congelado)
- Osteoartrose da articulação do quadril (coxartrose)
- Osteoartrite das articulações intervertebrais (espondiloartrose)
- Osteoartrite da articulação do joelho (gonartrose)
- Osteoartrite da articulação sacroilíaca
- Disfunção e osteoartrite da articulação temporomandibular (ATM)
- Doença autoimune do tecido conjuntivo:
- Joanete (hallux valgus)
- Epicondilite ("cotovelo de tenista")
- Higroma (cisto sinovial)
- Anquilose articular
- Contraturas articulares
- Luxação articular:
- Lesão da articulação do joelho (ligamentos e menisco)
- Doença óssea metabólica:
- Miosite, fibromialgia (dor muscular)
- Fascite plantar (esporão do calcâneo)
- Tenossinovite (infecciosa, estenosante)
- Vitamina D e paratormônio






