Artrite reumatoide

O que é Artrite Reumatoide (AR)?

A artrite reumatoide (AR) é uma doença inflamatória autoimune, sistêmica e crônica, caracterizada principalmente pela inflamação da membrana sinovial (o revestimento das articulações). Essa inflamação leva a dor, inchaço, rigidez e eventual destruição da cartilagem e do osso dentro das articulações, podendo causar deformidade articular e perda de função (1, 2).

Como uma doença autoimune, a AR ocorre quando o sistema imunológico do corpo ataca por engano seus próprios tecidos saudáveis, visando principalmente as articulações. Embora a causa exata (etiologia) seja desconhecida, provavelmente envolve uma combinação de predisposição genética e fatores ambientais (por exemplo, tabagismo, certas infecções) (1, 3).

A AR normalmente afeta as articulações simetricamente (por exemplo, ambos os pulsos, ambos os joelhos) e mais comumente envolve as pequenas articulações das mãos (metacarpofalangeanas - MCF, interfalangeanas proximais - IFP) e pés (metatarsofalangeanas - MTF), bem como pulsos, cotovelos, ombros, joelhos e tornozelos (2, 4).

Como a AR é uma doença sistêmica, ela também pode afetar outras partes do corpo além das articulações, incluindo a pele (nódulos reumatoides), olhos, pulmões, coração, vasos sanguíneos e nervos (1, 2). O diagnóstico precoce e o tratamento agressivo são cruciais para controlar a inflamação, prevenir danos articulares, manter a função e gerenciar os efeitos sistêmicos.

A artrite reumatoide normalmente afeta várias articulações simetricamente, especialmente os pulsos, mãos (articulações MCF, IFP) e pés (articulações MTF) (2, 4).

Nota: A descrição de uma artrite "volátil" migrando entre as articulações e a patologia primária sendo no coração é característica da Febre Reumática Aguda, não da Artrite Reumatoide. A AR envolve inflamação persistente nas articulações afetadas (1).

Grandes articulações como os joelhos também podem ser significativamente afetadas pela artrite reumatoide, levando a dor, inchaço e limitação funcional (2).

Sintomas da Artrite Reumatoide

A apresentação da AR pode variar, mas os sintomas comuns incluem (1, 2, 4):

  • Dor, inchaço e sensibilidade nas articulações: Afetando várias articulações, muitas vezes simetricamente.
  • Rigidez matinal: Rigidez prolongada (geralmente durando mais de 30-60 minutos) ao acordar ou após períodos de inatividade, que melhora gradualmente com o movimento.
  • Amplitude de movimento reduzida: Dificuldade em mover totalmente as articulações afetadas.
  • Fadiga e mal-estar: Sensação geral de mal-estar, cansaço ou falta de energia.
  • Febre baixa: Às vezes presente, refletindo inflamação sistêmica.
  • Perda de peso: Pode ocorrer perda de peso não intencional.
  • Nódulos reumatoides: Caroços firmes sob a pele, frequentemente encontrados sobre pontos de pressão como cotovelos ou dedos (ocorrem em cerca de 20-30% dos pacientes, geralmente naqueles positivos para fator reumatoide).
  • Manifestações sistêmicas: A inflamação pode afetar outros órgãos, levando a sintomas como olhos/boca secos (síndrome de Sjögren), inflamação pulmonar (pleurite, doença pulmonar intersticial), inflamação ao redor do coração (pericardite) ou inflamação dos vasos sanguíneos (vasculite).

Diagnóstico da Artrite Reumatoide

O diagnóstico da AR envolve uma combinação de avaliação clínica, exames laboratoriais e estudos de imagem. Não existe um único teste definitivo (1, 5).

  • Histórico médico e exame físico: Avaliação do padrão de envolvimento articular (número, simetria, articulações específicas), duração dos sintomas (especialmente rigidez matinal), presença de sintomas sistêmicos e histórico familiar. O exame concentra-se na identificação de articulações inchadas e sensíveis, amplitude de movimento reduzida e possíveis deformidades ou nódulos.
  • Exames laboratoriais:
    • Fator Reumatoide (FR): Um anticorpo encontrado no sangue de cerca de 70-80% dos pacientes com AR. No entanto, pode estar presente em outras condições e ausente em alguns pacientes com AR (AR soronegativa) (1, 5).
    • Anticorpos antipeptídeo cíclico citrulinado (anti-CCP): Mais específicos para AR do que o FR e frequentemente presentes no início da doença. O anti-CCP positivo está associado a uma maior probabilidade de doença erosiva (1, 5).
    • Marcadores inflamatórios: Os níveis de Velocidade de Hemossedimentação (VHS) e Proteína C-Reativa (PCR) geralmente estão elevados, indicando inflamação sistêmica, mas não são específicos para AR (1, 5).
    • Hemograma completo (HC): Pode mostrar anemia normocítica (anemia de doença crônica) ou trombocitose (plaquetas elevadas) relacionada à inflamação.
  • Estudos de imagem:
    • Radiografias: Podem ser normais no início. Mais tarde, podem mostrar achados característicos como inchaço de tecidos moles, osteopenia periarticular (afinamento ósseo perto das articulações), estreitamento do espaço articular e erosões ósseas (danos ao osso nas margens articulares) (1, 5). Usadas para avaliar danos e monitorar a progressão.
    • Ultrassom ou RM: Mais sensíveis que as radiografias para detectar inflamação precoce (sinovite, tenossinovite, derrames) e erosões precoces (1).
  • Critérios de classificação: Os critérios de classificação de 2010 do American College of Rheumatology (ACR) / European League Against Rheumatism (EULAR) são frequentemente usados para auxiliar no diagnóstico, particularmente na AR inicial. Esses critérios atribuem pontos com base no padrão de envolvimento articular, sorologia (FR/anti-CCP), marcadores inflamatórios (VHS/PCR) e duração dos sintomas (5). Uma pontuação de 6 ou mais em 10 é consistente com AR definitiva.
Deformidades características das mãos, como desvio ulnar e subluxações dos dedos, podem se desenvolver na artrite reumatoide crônica, não tratada ou mal controlada (1).

Tratamento da Artrite Reumatoide

Os principais objetivos do tratamento da AR são (1, 6):

  • Controlar a inflamação (alcançar remissão ou baixa atividade da doença).
  • Aliviar a dor e outros sintomas.
  • Prevenir ou retardar danos e deformidades articulares.
  • Manter ou melhorar a função física e a qualidade de vida.
  • Gerenciar complicações sistêmicas.

O tratamento normalmente envolve uma combinação de medicamentos, fisioterapia, modificações no estilo de vida e, às vezes, cirurgia. O tratamento precoce e agressivo, frequentemente gerenciado por um reumatologista, está associado a melhores resultados a longo prazo (1, 6). A estratégia "treat-to-target" (tratar para o alvo) visa atingir um objetivo específico (remissão ou baixa atividade da doença) monitorando regularmente a atividade da doença e ajustando o tratamento de acordo (6).

Medicamentos:

  • Drogas Antirreumáticas Modificadoras da Doença (DMARDs): Estas são a base do tratamento da AR, pois têm como alvo os processos imunológicos subjacentes para retardar a progressão da doença e prevenir danos articulares.
    • DMARDs sintéticos convencionais (csDMARDs): O metotrexato é tipicamente a escolha de primeira linha. Outros incluem sulfassalazina, leflunomida e hidroxicloroquina (1, 6).
    • DMARDs biológicos (bDMARDs): São proteínas geneticamente modificadas que têm como alvo moléculas ou células inflamatórias específicas (por exemplo, inibidores do TNF como adalimumabe, etanercepte; inibidores da IL-6 como tocilizumabe; inibidores da coestimulação de células T como abatacepte; agentes depletores de células B como rituximabe) (1, 6). Usados se os csDMARDs forem insuficientes ou não tolerados.
    • DMARDs sintéticos alvo-específicos (tsDMARDs): Medicamentos de pequenas moléculas tomados por via oral que têm como alvo vias intracelulares específicas (por exemplo, inibidores da JAK como tofacitinibe, baricitinibe, upadacitinibe) (1, 6). Frequentemente usados após csDMARDs ou, às vezes, biológicos.
  • Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs): Como ibuprofeno ou naproxeno. Ajudam a reduzir a dor e a inflamação, mas *não* retardam a progressão da doença. Usados para alívio dos sintomas, frequentemente junto com DMARDs (1).
  • Corticosteroides (por exemplo, Prednisona): Medicamentos anti-inflamatórios potentes. Podem proporcionar alívio rápido dos sintomas. Frequentemente usados como terapia de "ponte" enquanto se espera que os DMARDs façam efeito ou durante as crises da doença. O uso a longo prazo é limitado devido a possíveis efeitos colaterais; doses baixas podem ser usadas em alguns casos (1, 6). Injeções intra-articulares de esteroides podem ter como alvo articulações inflamadas específicas.

Terapias Não Farmacológicas:

  • Fisioterapia: Exercícios para manter a flexibilidade das articulações, fortalecer os músculos de suporte e melhorar a função (1).
  • Terapia Ocupacional: Estratégias e dispositivos de assistência para proteger as articulações e gerenciar as atividades diárias.
  • Educação do Paciente e Programas de Autogerenciamento: Compreender a doença e as estratégias de tratamento.
  • Estilo de vida: Cessação do tabagismo (fumar piora a AR), dieta saudável, gerenciamento do estresse.
Modalidades de fisioterapia podem ser usadas como adjuvantes para ajudar a gerenciar a dor, o inchaço e manter a função em articulações afetadas, como o tornozelo, durante o tratamento da AR (1).

A fisioterapia e a terapia ocupacional são importantes para gerenciar os sintomas e manter a função em áreas comumente afetadas, como pulsos e mãos, na AR (1).

Tratamento Cirúrgico:

  • Considerado para danos articulares graves ou deformidades que não respondem ao tratamento médico. Os procedimentos incluem sinovectomia (remoção da membrana sinovial inflamada), reparo de tendão, fusão articular (artrodese) ou substituição articular (artroplastia) (1).

O manejo frequentemente requer uma equipe multidisciplinar, incluindo reumatologistas, médicos de atenção primária, fisioterapeutas/terapeutas ocupacionais e, às vezes, cirurgiões ortopédicos.

Componentes do Manejo da AR

Uma abordagem abrangente para o manejo da AR envolve vários componentes integrados (1, 6):

  • Terapia Farmacológica: Uso de DMARDs, AINEs e corticosteroides apropriados conforme necessário, guiados pela atividade da doença e pela estratégia treat-to-target.
  • Monitoramento da Atividade da Doença: Avaliação regular usando escores compostos (por exemplo, DAS28, CDAI, SDAI), resultados relatados pelo paciente e avaliação médica para orientar os ajustes do tratamento (exame clínico e acompanhamento) (6).
  • Fisioterapia e Terapia Ocupacional: Incluindo exercícios terapêuticos, técnicas de proteção articular e uso de dispositivos de assistência.
  • Manejo da Dor: Utilização de medicamentos, modalidades físicas e, às vezes, terapias complementares. Injeções intra-articulares podem proporcionar alívio direcionado.
  • Educação e Apoio ao Paciente: Capacitar os pacientes a participar ativamente de seus cuidados.
  • Manejo de Comorbidades: Abordar condições associadas, como doenças cardiovasculares, osteoporose, infecções e depressão.
  • Intervenção Cirúrgica: Tratamento cirúrgico quando indicado para danos articulares ou comprometimento funcional.
  • Reabilitação: Programas de reabilitação pós-cirúrgica ou para melhorar a função geral. (Nota: O tratamento em spa e a massagem geral (massagem) podem oferecer alívio dos sintomas para alguns, mas não são tratamentos essenciais baseados em evidências para modificar o próprio processo da doença da AR (1)).

Diagnóstico Diferencial

Várias condições podem imitar a AR, exigindo diferenciação cuidadosa (1, 7):

Condição Características Diferenciadoras Principais
Osteoartrite (OA) Degenerativa ("desgaste"). Afeta articulações que suportam peso (joelhos, quadris) e articulações IFD/IFP das mãos. A dor piora com a atividade, melhora com o repouso. Rigidez matinal breve (<30 min). Inflamação sistêmica ausente (VHS/PCR normais). As radiografias mostram osteófitos, estreitamento do espaço articular. FR/anti-CCP negativos.
Artrite Psoriásica (APs) Associada à psoríase (alterações na pele/unhas). Pode afetar as articulações IFD, coluna (espondilite) e causar dactilite ("dedos em salsicha"), entesite (inflamação onde os tendões se fixam). O padrão pode ser assimétrico. FR frequentemente negativo.
Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) Doença autoimune sistêmica com envolvimento de múltiplos órgãos (erupção cutânea, rins, SNC, células sanguíneas). A artrite é comum, mas geralmente não erosiva. Autoanticorpos específicos (por exemplo, anti-dsDNA, anti-Sm) presentes.
Gota / Pseudogota Artropatias por cristais que causam inflamação articular aguda, grave e episódica (frequentemente monoarticular inicialmente, por exemplo, dedão do pé na gota). Diagnóstico pela identificação de cristais (urato/CPPD) no líquido sinovial. A gota crônica pode imitar a AR (gota tofácea).
Artrite Reativa Desenvolve-se após infecção (frequentemente gastrointestinal ou geniturinária). Tipicamente oligoartrite assimétrica (poucas articulações), frequentemente nos membros inferiores. Pode ter uretrite, conjuntivite associadas.
Artrite Séptica Infecção bacteriana de uma articulação. Apresenta-se agudamente com dor intensa, inchaço, vermelhidão, calor, febre, incapacidade de mover a articulação. Requer diagnóstico urgente (análise/cultura do líquido sinovial) e tratamento (antibióticos, drenagem).
Fibromialgia Dor musculoesquelética generalizada, fadiga, distúrbios do sono, pontos sensíveis. As próprias articulações não estão tipicamente inchadas ou inflamadas. Marcadores inflamatórios normais.
Doença de Lyme Pode causar artrite (frequentemente no joelho) semanas a meses após picada de carrapato/erupção cutânea. Diagnóstico por sorologia.

Referências

  1. Smolen JS, Aletaha D, McInnes IB. Rheumatoid arthritis. Lancet. 2016;388(10055):2023-2038. doi:10.1016/S0140-6736(16)30173-8
  2. Firestein GS, McInnes IB. Immunopathogenesis of Rheumatoid Arthritis. Immunity. 2017;46(2):183-196. doi:10.1016/j.immuni.2017.02.006
  3. Deane KD, Demoruelle MK, Kelmenson LB, et al. Genetic and environmental risk factors for rheumatoid arthritis. Best Pract Res Clin Rheumatol. 2017;31(1):3-18. doi:10.1016/j.berh.2017.08.003
  4. Scott DL, Wolfe F, Huizinga TW. Rheumatoid arthritis. Lancet. 2010;376(9746):1094-1108. doi:10.1016/S0140-6736(10)60826-4
  5. Aletaha D, Neogi T, Silman AJ, et al. 2010 Rheumatoid arthritis classification criteria: an American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism collaborative initiative. Arthritis Rheum. 2010;62(9):2569-2581. doi:10.1002/art.27584
  6. Smolen JS, Landewé RBM, Bijlsma JWJ, et al. EULAR recommendations for the management of rheumatoid arthritis with synthetic and biological disease-modifying antirheumatic drugs: 2019 update. Ann Rheum Dis. 2020;79(6):685-699. doi:10.1136/annrheumdis-2019-216655
  7. Wasserman AM. Diagnosis and Management of Rheumatoid Arthritis. Am Fam Physician. 2011;84(11):1245-1252. Available from: https://www.aafp.org/pubs/afp/issues/2011/1201/p1245.html